Assoladora penumbra
De gesto enfermo
Consolador
Sobre o corpo imóvel
E frio, gasto
Por água lacriminosa,
Esvaido em fadiga dolorosa
Em três quartos de alma
Três quartos de mim
Rogai,
Inconsolados
Desamados
Filhos de ninguém,
Esquecidos nas mentes ventosas
Porque assim nos deixastes
Voláteis ao poder,
Ignóbeis, sem pudor
Ladrões de mão vazia
Gastos do rancor
Iluminado nos becos da ilusão.
Oh, deus tapado
No teu alto
Estabelecei ao corpo
O prazer insurrecto
Dai à alma a vontade
Que interditaste
De caminhar suspensa,
Rasa ao Sol.
Ressuscita o legítimo
Filho bastardo
Gerado no ventre do diabo.
Teremos mão poetastro?
Teremos fé de puta?
Somos corpos corcovados
Desmembrados
Em três quartos de alma
Três quartos de ti
Seguindo a direito na penumbra
Na fala com o pródigo,
Dialecto extinto de morte,
Cai.
Resto de carne em corte
A bisturi, na lateral.
Esvai-se a penumbra
Os nevoeiros
Passam por eles barqueiros
Rasgando os abismos dos hemisférios
São tolos, proxenetas
Penetrados pelos males sagrados.
Saiem surtos de cólera
Cheiro de morte
Passa um ventre parindo
Sangrado, operado
Voluptuoso
Nele a glória mundana
A praga insana
De três quartos de alma
Três quartos de mim
segunda-feira, 20 de maio de 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
12
Aparei todas as lágrimas sangradas e gritos nas mãos. Com o pavor, apertei-os com tanta força que os meus ossos desfizeram-se por dentro da minha pele. Tornei-me numa espécie de tapete por onde gentes caminhavam por cima e limpavam as solas dos sapatos empoeiradas de vidros trazidos numas viagens esféricas. Escusado era qualquer esforço para me mover. Ser arrastado, dobrado, empurrado fez o meu andar. Enfeitei esquinas, dormi em becos, fatiguei-me de ruelas, mas os gritos, esses, mantive sempre bem perto de mim.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Cisne só
Fora a cabeça que balança
No espeto, como se procurasse
Um vislumbre de loucura
Perdida nos braços de um cisne negro
Fora o tronco inerte
Colhido no seio da plumagem
Rugindo à efémera
Vontade de se exonerar
Oh, horas paranóicas
Invertidas no submerso
Feitas lume rasgado em solidão
Tragam ao corpo o mal merecido
Tragam à carne os ponteiros
Façam dos ossos egoísmo
Dêem ao cisne o ridículo
De querer estar só.
No espeto, como se procurasse
Um vislumbre de loucura
Perdida nos braços de um cisne negro
Fora o tronco inerte
Colhido no seio da plumagem
Rugindo à efémera
Vontade de se exonerar
Oh, horas paranóicas
Invertidas no submerso
Feitas lume rasgado em solidão
Tragam ao corpo o mal merecido
Tragam à carne os ponteiros
Façam dos ossos egoísmo
Dêem ao cisne o ridículo
De querer estar só.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Quarto despido
Segue os outros
Mexe os teus passos
Nas mais opostas direcções
E continua inerte
Junto a essa porta
De madeira envernizada com o meu suor
Ergue o teu rosto no meu corpo,
Fixa-te nos lábios,
Esses que te dispneiam
E fazem corar as maçãs do rosto.
Oh meu Adónis terreno
Frente a mim
Oh meu doce, eterno rapaz
Desassossega os traços que te amam
E te prendem nos lençóis
Faz de mim teu pertence.
Neste espaço
Ou naquela praia,
Por favor, amanhã,
Sussurra-me ao ouvido cantos de glória.
Derrete a minha carne,
A minha pele.
Pinta a parede com o meu sangue
Faz do meu dorso teu trono
Bebe nas malgas das minhas mãos
O mais doce e puro veneno.
Grita, estonteia,
Guarda-te em mim.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Extracto da fornicação I
Ai, estas vozes
fornicam-me
Ai, estas vozes
mastigam-me
Estas vozes
Prendem-me palavras ao crânio
Que se desfazem com chuva
E enterram-se nele.
Ai, estas vozes
Agudas, dor
Ai!
vozes, vozes
Não me façam mais suspirar
Não me façam mais chorar
Não me façam mais cansar
Não quero suplicar
Ai
Vozes
Não vos ouço.
sábado, 26 de maio de 2012
Abro o fecho da minha pele
Dispo-me
E desfilo amarrado
A rochas de lava derretida
Que me caiem sobre os pés
Esburaca-se a carne exposta
Chego ao patíbulo
Sentam-me
Na cadeira violentada
Ligam a corrente
Estremeço, tremo
Rasgo o céfalo.
Sou, já inerte
Acusado de viver
Sobre águas movediças
E eles
Eles!
Infelizes, pobres, carrascos
Só eles
Sabem a verdade.
Dispo-me
E desfilo amarrado
A rochas de lava derretida
Que me caiem sobre os pés
Esburaca-se a carne exposta
Chego ao patíbulo
Sentam-me
Na cadeira violentada
Ligam a corrente
Estremeço, tremo
Rasgo o céfalo.
Sou, já inerte
Acusado de viver
Sobre águas movediças
E eles
Eles!
Infelizes, pobres, carrascos
Só eles
Sabem a verdade.
domingo, 13 de maio de 2012
Nunca Cessemos
Dê-mos as mãos
Apertemos com tanta força
Até fazer estremecer as águas do mar
Fazer descer dos céus as nuvens.
No meio da neblina
Imaginando os rostos doridos
Trémulos
Larguemo-las, cravejadas de sangue
E brotemos lágrimas opacas
Que formem as covas
Onde dormiremos juntos.
Apertemos com tanta força
Até fazer estremecer as águas do mar
Fazer descer dos céus as nuvens.
No meio da neblina
Imaginando os rostos doridos
Trémulos
Larguemo-las, cravejadas de sangue
E brotemos lágrimas opacas
Que formem as covas
Onde dormiremos juntos.
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