quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Terra está no lugar do Céu e o Céu está no lugar da Terra, e os meus pés pisam o Céu. Ando assim no inverso. Os cumes das árvores acariciam-me os cabelos, os cumes das montanhas cortam-me o cérebro e de dor empenhada tudo parece normal, alguém se parece satisfeito. A chuva é lava dos vulcões, porque a chuva propriamente dita, essa fica-se pelo céu, sem curso e sem desaguar. Os lagos, os rios e oceanos caíram em massa quando o mundo virou. Foram ondas gigantes e tenebrosas que se repetiram seguidas, umas atrás das outras. Não houve nada para destruir a não ser eu. Mas sustive a respiração o máximo que pude, e isso foi por muito tempo, e sentei-me numa nuvem mal formada, porque ao que parece a água não as deixa ficarem na sua forma natural, macias como algodão, de traços arredondados, o único resto de beleza que aqui ainda há. E esperei que tudo passasse, que eu acordasse. Descobri que nada seria igual, pois suster a respiração já não tirava a vida, já não chamava a morte. Então vagueei e ainda hoje o faço, à espera que um dia o Céu volte ao Céu e a Terra volte à Terra.

No meu invólucro

         Invoco em mim todas as forças para impingir-me maldade e sofrimento. Torno-me ébrio, podre, negro, moribundo e sorumbático. Repugno o toque e o carinho. Nego o amor e toda a existência de correntes de unificação das almas.
         No zénite de toda a minha sombria forma de estar nascido, vista nas profundas reacções, talvez congénitas, empurro-me contra os extremos de uma corda bambaleante que não pousa para segurar-me. Sem conseguir ver fim do Apocalipse, continua a alma disforme, com a auréola a amarrar-lhe os pés ao inferno, a caminhar para o impossível meio daquela que persiste em não estabilizar.