A Terra está no lugar do Céu e o Céu está no lugar da Terra, e os meus pés pisam o Céu. Ando assim no inverso. Os cumes das árvores acariciam-me os cabelos, os cumes das montanhas cortam-me o cérebro e de dor empenhada tudo parece normal, alguém se parece satisfeito. A chuva é lava dos vulcões, porque a chuva propriamente dita, essa fica-se pelo céu, sem curso e sem desaguar. Os lagos, os rios e oceanos caíram em massa quando o mundo virou. Foram ondas gigantes e tenebrosas que se repetiram seguidas, umas atrás das outras. Não houve nada para destruir a não ser eu. Mas sustive a respiração o máximo que pude, e isso foi por muito tempo, e sentei-me numa nuvem mal formada, porque ao que parece a água não as deixa ficarem na sua forma natural, macias como algodão, de traços arredondados, o único resto de beleza que aqui ainda há. E esperei que tudo passasse, que eu acordasse. Descobri que nada seria igual, pois suster a respiração já não tirava a vida, já não chamava a morte. Então vagueei e ainda hoje o faço, à espera que um dia o Céu volte ao Céu e a Terra volte à Terra.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
No meu invólucro
Invoco em mim todas as forças para impingir-me maldade e sofrimento. Torno-me ébrio, podre, negro, moribundo e sorumbático. Repugno o toque e o carinho. Nego o amor e toda a existência de correntes de unificação das almas.
No zénite de toda a minha sombria forma de estar nascido, vista nas profundas reacções, talvez congénitas, empurro-me contra os extremos de uma corda bambaleante que não pousa para segurar-me. Sem conseguir ver fim do Apocalipse, continua a alma disforme, com a auréola a amarrar-lhe os pés ao inferno, a caminhar para o impossível meio daquela que persiste em não estabilizar.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Quero conhecer raros, fracos e intensos
penetrarem-me a vida por um dia,
desconhecidos e aturdidos para
desabafos imersos em copos, desalentos.
Quero tudo que mais odeio,
quero gentes e baratas
quero mofo, quero mijos em latas
quero mais e mais, quero o receio.
Que me encham os flancos,
todo o corpo
que me perfurem as veias e os ossos
Que me encham por dentro e por fora.
Dêem-me o vazio mais o inteiro
que mais e mais eu posso
Para que cheio de tudo isto
pareça levitar, dançar
e abanar-me ao vento.
Despojar rios e bater-me nas pedras
assim e assim freneticamente
E no dia seguinte
depois de tanto purificado
lavar-me a alma
[trespassada pelo amargo e
o som da calma]
que balanceia entre este e o inferno
entre aquele e o paraíso.
penetrarem-me a vida por um dia,
desconhecidos e aturdidos para
desabafos imersos em copos, desalentos.
Quero tudo que mais odeio,
quero gentes e baratas
quero mofo, quero mijos em latas
quero mais e mais, quero o receio.
Que me encham os flancos,
todo o corpo
que me perfurem as veias e os ossos
Que me encham por dentro e por fora.
Dêem-me o vazio mais o inteiro
que mais e mais eu posso
Para que cheio de tudo isto
pareça levitar, dançar
e abanar-me ao vento.
Despojar rios e bater-me nas pedras
assim e assim freneticamente
E no dia seguinte
depois de tanto purificado
lavar-me a alma
[trespassada pelo amargo e
o som da calma]
que balanceia entre este e o inferno
entre aquele e o paraíso.
sábado, 7 de setembro de 2013
Hoje ainda não sei
Agora já sabes as cores das luas,
dos sóis, dos mares e das pedras.
Já sabes que é infinito o horizonte,
as linhas dos versos que quero
escrever, mas que o peso que
sinto na memória impele-me em
dizer-tos. Ficas também a saber
que é intransponível a saudade,
e o resto e a inquietude de não
te ter para me poder enroscar
como o vento nas árvores.
Mas deixo-te saber tudo isto
agora, neste instante, neste minuto
e não naquela hora. Hoje,
é quando eu sei que tu também sabes.
Pergunto-me, apenas, quando é que
saberei, quando me dirás.
Se terei de esperar ou ouvir
das bocas das gaivotas e dos
indigentes. Das pedras que roçam,
dos mares que abanam, dos sóis
que por vezes perdem o brilho
porque as luas teimam em
ser mais altas. Mas estas, quando
se levantam, é quando
esqueço tudo e deleito-me
na almofada do tempo à espera
de saber sobre mais um dia.
dos sóis, dos mares e das pedras.
Já sabes que é infinito o horizonte,
as linhas dos versos que quero
escrever, mas que o peso que
sinto na memória impele-me em
dizer-tos. Ficas também a saber
que é intransponível a saudade,
e o resto e a inquietude de não
te ter para me poder enroscar
como o vento nas árvores.
Mas deixo-te saber tudo isto
agora, neste instante, neste minuto
e não naquela hora. Hoje,
é quando eu sei que tu também sabes.
Pergunto-me, apenas, quando é que
saberei, quando me dirás.
Se terei de esperar ou ouvir
das bocas das gaivotas e dos
indigentes. Das pedras que roçam,
dos mares que abanam, dos sóis
que por vezes perdem o brilho
porque as luas teimam em
ser mais altas. Mas estas, quando
se levantam, é quando
esqueço tudo e deleito-me
na almofada do tempo à espera
de saber sobre mais um dia.
Acrópole
Que se levantem as pedras
Dos abismos do mar
Para que se ergam na Terra
Acrópoles aos deuses que
Minguam nas mentes
Incrédulas dos transeuntes.
Que o som das gotas
Do orvalho madrugador
Abafe os gritos das camas
Prazerosas nas
Manhãs de Verão.
Para que isto,
Minha cruz e teu sacrário,
Se abrigue num templo eterno de escravidão.
A tua mão enforca-me o sono
O meu gemido mata a tua sede
Funde-se o corpo na
Escuridão do dia e
Os peregrinos começam as
Marchas anuais para o templo
Onde nós e os deuses
Orgiamos as normas que
Regem o amor.
Dos abismos do mar
Para que se ergam na Terra
Acrópoles aos deuses que
Minguam nas mentes
Incrédulas dos transeuntes.
Que o som das gotas
Do orvalho madrugador
Abafe os gritos das camas
Prazerosas nas
Manhãs de Verão.
Para que isto,
Minha cruz e teu sacrário,
Se abrigue num templo eterno de escravidão.
A tua mão enforca-me o sono
O meu gemido mata a tua sede
Funde-se o corpo na
Escuridão do dia e
Os peregrinos começam as
Marchas anuais para o templo
Onde nós e os deuses
Orgiamos as normas que
Regem o amor.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Relato do Enfermo
Assoladora penumbra
De gesto enfermo
Consolador
Sobre o corpo imóvel
E frio, gasto
Por água lacriminosa,
Esvaido em fadiga dolorosa
Em três quartos de alma
Três quartos de mim
Rogai,
Inconsolados
Desamados
Filhos de ninguém,
Esquecidos nas mentes ventosas
Porque assim nos deixastes
Voláteis ao poder,
Ignóbeis, sem pudor
Ladrões de mão vazia
Gastos do rancor
Iluminado nos becos da ilusão.
Oh, deus tapado
No teu alto
Estabelecei ao corpo
O prazer insurrecto
Dai à alma a vontade
Que interditaste
De caminhar suspensa,
Rasa ao Sol.
Ressuscita o legítimo
Filho bastardo
Gerado no ventre do diabo.
Teremos mão poetastro?
Teremos fé de puta?
Somos corpos corcovados
Desmembrados
Em três quartos de alma
Três quartos de ti
Seguindo a direito na penumbra
Na fala com o pródigo,
Dialecto extinto de morte,
Cai.
Resto de carne em corte
A bisturi, na lateral.
Esvai-se a penumbra
Os nevoeiros
Passam por eles barqueiros
Rasgando os abismos dos hemisférios
São tolos, proxenetas
Penetrados pelos males sagrados.
Saiem surtos de cólera
Cheiro de morte
Passa um ventre parindo
Sangrado, operado
Voluptuoso
Nele a glória mundana
A praga insana
De três quartos de alma
Três quartos de mim
De gesto enfermo
Consolador
Sobre o corpo imóvel
E frio, gasto
Por água lacriminosa,
Esvaido em fadiga dolorosa
Em três quartos de alma
Três quartos de mim
Rogai,
Inconsolados
Desamados
Filhos de ninguém,
Esquecidos nas mentes ventosas
Porque assim nos deixastes
Voláteis ao poder,
Ignóbeis, sem pudor
Ladrões de mão vazia
Gastos do rancor
Iluminado nos becos da ilusão.
Oh, deus tapado
No teu alto
Estabelecei ao corpo
O prazer insurrecto
Dai à alma a vontade
Que interditaste
De caminhar suspensa,
Rasa ao Sol.
Ressuscita o legítimo
Filho bastardo
Gerado no ventre do diabo.
Teremos mão poetastro?
Teremos fé de puta?
Somos corpos corcovados
Desmembrados
Em três quartos de alma
Três quartos de ti
Seguindo a direito na penumbra
Na fala com o pródigo,
Dialecto extinto de morte,
Cai.
Resto de carne em corte
A bisturi, na lateral.
Esvai-se a penumbra
Os nevoeiros
Passam por eles barqueiros
Rasgando os abismos dos hemisférios
São tolos, proxenetas
Penetrados pelos males sagrados.
Saiem surtos de cólera
Cheiro de morte
Passa um ventre parindo
Sangrado, operado
Voluptuoso
Nele a glória mundana
A praga insana
De três quartos de alma
Três quartos de mim
sábado, 12 de janeiro de 2013
12
Aparei todas as lágrimas sangradas e gritos nas mãos. Com o pavor, apertei-os com tanta força que os meus ossos desfizeram-se por dentro da minha pele. Tornei-me numa espécie de tapete por onde gentes caminhavam por cima e limpavam as solas dos sapatos empoeiradas de vidros trazidos numas viagens esféricas. Escusado era qualquer esforço para me mover. Ser arrastado, dobrado, empurrado fez o meu andar. Enfeitei esquinas, dormi em becos, fatiguei-me de ruelas, mas os gritos, esses, mantive sempre bem perto de mim.
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